Política

Disputa pelo Governo do Tocantins transforma voto bolsonarista em eixo central e relega eleitorado progressista ao segundo plano

Por: Nadya Mayara

A disputa pelo Governo do Tocantins chega ao segundo turno revelando mais do que uma corrida apertada entre Professora Dorinha e Vicentinho Júnior. Expõe também a centralidade que o eleitorado bolsonarista assumiu na definição da eleição e a dificuldade do campo progressista de apresentar uma alternativa competitiva e capaz de pautar o debate estadual.

A aproximação das duas candidaturas com esse segmento não é casual. Ela responde à força demonstrada pela direita nas urnas e à necessidade de conquistar votos em uma disputa marcada por uma diferença estreita. O movimento ganhou novo peso após Flávio Bolsonaro declarar apoio a Dorinha, que passou a reforçar sua proximidade com lideranças nacionais da direita. Vicentinho, por sua vez, busca ampliar o diálogo com o mesmo campo político e consolidar sua candidatura entre os eleitores alinhados ao bolsonarismo.

Os números ajudam a explicar essa estratégia. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro foi o candidato mais votado para a Presidência no Tocantins, com 50,44% dos votos válidos. Na disputa estadual, Dorinha terminou na liderança, com 45,52%, enquanto Vicentinho alcançou 43,94%. A pequena diferença entre os dois transforma cada segmento do eleitorado em alvo prioritário das campanhas mas, na prática, é a direita que ocupa o centro das articulações.

A busca pelos votos dos candidatos que ficaram fora do segundo turno será decisiva. No entanto, o debate público parece se organizar menos em torno de projetos distintos para o estado e mais em torno da capacidade de cada candidatura de se associar a uma identidade política nacional. O Tocantins, nesse cenário, corre o risco de assistir a uma eleição estadual subordinada à lógica da polarização nacional.

É justamente nesse contexto de disputa por identidades políticas nacionais que o campo progressista também passa a ocupar um lugar estratégico, especialmente pela força política e eleitoral de Lula no estado e no cenário nacional. Embora não tenha uma candidatura própria no segundo turno, o presidente continua sendo uma referência decisiva para uma parcela expressiva do eleitorado tocantinense. Seus votos, sua aprovação e sua capacidade de mobilização podem influenciar diretamente a escolha entre Dorinha e Vicentinho, ainda que suas pautas não apareçam como eixo estruturante das campanhas.

Essa ausência não é apenas um dado eleitoral. Ela revela a dificuldade das forças progressistas de construir uma presença própria no debate tocantinense e de transformar suas propostas em uma alternativa capaz de mobilizar o eleitorado. Ao deixar de ocupar esse espaço de forma organizada, o campo progressista permite que a eleição seja definida quase exclusivamente pelos termos estabelecidos pela direita.

No segundo turno, marcado para 25 de outubro, a disputa pelo Palácio Araguaia será decidida pela capacidade de cada candidatura de ampliar alianças, atrair os votos dos concorrentes derrotados e mobilizar o eleitorado bolsonarista. Mas o resultado também dirá muito sobre o lugar que o campo progressista pretende ocupar na política do Tocantins: se continuará como força periférica ou se será capaz de reconstruir uma agenda própria para além da polarização nacional.

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